26 de maio de 2009

Do amor...


Quero penetrar-te o ânus, 
Ouvir-nos ao tom gemebundo 
Do fogo que faz girar o mundo, 
Entre nossos sôfregos abanos. 

Quero pôr-to na boca, 
Sentir-ta assim cheia, 
Em tua língua de geleia, 
Qual fero animal em doce toca. 

Quero habitar-te a vagina, 
Que é como ter-te toda, 
Não apenas mera foda: 
Coisa bem mais dina.

anno 2005

32 comentários:

Tiago r disse...

A este pequeno poema, escrito há uns anos (ignore-se a pouca estética que lhe reservei, ainda que o tenha tentado recuperar aqui e ali), fiz aqui publicar por mor do que pretende: apelar àquilo que durante tanto tempo foi mascarado de coisa má, pelo simples facto de nunca ter sido assumido. Hei, foi daqui que todos viemos! - devia ser suficiente... Mas esses, que a tal infortúnio sujeitaram algo tão bom e benéfico como o sexo (que a sociedade, tanto em domínios colectivos como particulares, ainda acha escandaloso, muito provavelmente por nunca terem sabido, ou terem tido a oportunidade de bem escolher os seus parceiros), simplesmente nunca o fizeram bem... Resumindo: o sexo é uma das formas de amar.

Fräulein Else disse...

Ai Meu Deus, Tiago!

Não vais concorrer com este poema, não?

ahah :)

Tiago r disse...

ahahah! só se fosse atrás da cortina! :)

Tiago r disse...

Não. Seria uma grande responsabilidade... Já viste o que era, pôr a plateia toda a vir-se? uh-uh!

Anónimo disse...

Caro amigo,

Nada mais transparente do que chamar as coisas pelos nomes. A verdade que existe, que se sente e sabe, mas decora-se com nomes mais brandos...foda é foda, sem mais nomes.

Tiago r disse...

Caro Anónimo

sim. posso concordar, ainda que, decerto, a maioria lesse nessas palavras, «foda é foda», um reconhecimento leviano da coisa. tal como fiz questão de ressalvar o carácter explícito do meu próprio poema, com um comentário aqui deixado, dirijo o mesmo à expressão em questão. as coisas são o que são, mas as mentalidades não... foda é o que é, mas, quanto a mim, distende-se inevitavelmente nas demais repercussões semânticas, devido, precisamente, ao que é.
e isto não é um sermão!

obrigado! :)

Fräulein Else disse...

Sim, se estivermos enamorados o sexo, em princípio, será mais intenso, logo esta expressão mais gráfica é amorosa - do amor, seguramente. :)

Tiago r disse...

Exacto. Por isso ñ hesitei em encimar o poema com o título q lá está. Mesmo embora não repugne de todo o sexo pelo sexo. Mas não será tão interessante, num prazo mais alongado.
E o poema pretende tb apelar à noção tacitamente sacro-cósmica(sem querer abusar da expressão) que é a união entre os corpos: o delírio. "The one that makes you crazy. A Mandala." :)

Anónimo disse...

Claro!
" Não apenas mera foda "
Gosto da sua escrita, nunca perca este seu lado "sedutor".

Tiago r disse...

Obrigado, Anómino 2! :)
Sugiro que deixem um nome, ñ precisa de ser o vosso, escuso de vos estar a tratar por números ;)
Mas muito obrigado: essa é a frase, sim. É «coisa bem mais dina.»

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Sim, Genet - entre outros - também disse as coisas pelo seu nome, embora o amor seja mais do que foda, pelo menos seria uma foda vinculativa e, de certo modo, aditiva.

Na nossa era do consumo irracional, todos os temas ligados à individualidade e aos seus ideais - sinais de crise - desapareceram e, em seu lugar, surge o sexo anónimo: a foda padronizada, sempre igual a si mesma. Torna-se tudo equivalente: foda é sempre a mesma foda.

Tiago r disse...

Caro filósofo Francisco!, não me desacredite o sexo como já o entrevi, por entre os comentários do(s) seu(s) excelente(s) blogue(s), quase a desacreditar a Filosofia! A individualidade, ainda que dependente, em todos os domínios sociais, dos outros, não pode deixar-se cair como os outros :)

Bem-vindo e peço desculpa pela demora a aceitar o seu comentário.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Tiago

Acredito na individualidade, mas reconheço que ainda não tomei posição (positiva) em relação ao debate das tiranias da intimidade e do narcisismo, talvez já um pouco tardio face às novas manifestações... Também apreciei o seu blogue, e sobretudo um post onde aborda a animalidade do humano: uma ponte. :)

Tiago r disse...

Compreendo essas tiranias de que fala: nem eu com elas compactuo, se bem que, como inevitável humano que sou, vez ou outra delas padeça. Embora aprecie o filósofo, não sou contudo sadiano; mas, se analisarmos bem, Sade tinha muito de humanista (a par do seu ódio pela estrutura psíquico do ser humano em vigor).
Quando falo de individualidade, falo, ou pretendo e procuro que isso signifique a manutenção e resistência ao mal degenerativo que de todos os lados, desde o catolicismo eclesiástico, nos ataca.
Portanto, quando falo de individualidade (positivo), não estou a falar de individualismo (negativo).

O meu post a que se refere, da animalidade no homem, deve ser o «A Serra...».

Tiago r disse...

Falei em Sade, mas talvez não estivesse a incluir a categoria do egoísmo nas tiranias de que fala... Fica a adenda, para me salvar do possível desvio temático.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Sim, é "A Serra" e também o texto "Autoria vs Genitura".

Não conheço directamente Sade, a não ser por intermédio de outros autores, embora tenha algum livro dele, mas não o estudei.

Quando falei das tiranias da intimidade, referia-me à tese de Sennett do declínio do homem público. Em ligação com temas que já debatemos, o eu tornou-se, depois da cisão entre eu e mundo, devido ao advento da sociedade aberta, um fardo para cada um de nós: conhecer-se a si mesmo é hoje uma finalidade e não um meio para conhecer o mundo. No entanto, penso que vivemos presentemente alguma metamorfose ainda não compreendida, mas também não pensei sobre o assunto. Daí a sexualidade em vez do erotismo: a sexualidade está ligada à identidade pessoal; o erotismo envolve interacções sociais e é psicologicamente mais "sofisticado", talvez... ;)

Tiago r disse...

:) Mas o post «Autoria vs Genitura» fala, essencialmente, do homem enquanto homem, enquanto potencial criador, e disto enquanto prerrogativa sua.

Sade é tão honesto, que é impossível de contornar - aconselho, para uma perspectiva filosófica, o «Filosofia na Alcova».

Sim, mas a individualidade de que falo não é narcísica. Por exemplo, aqui trato do sexo pelo que é, e para isso é preciso ter em conta todas as culturas da Antiguidade, isto é, a importância que davam ao sexo dentro do espaço humano e animal, categoria aceite do ponto de vista da transcendência (aqui, não divina, mas humana, um extra-estado, por oposição ao estado humoral quotidiano). Se o problema de Sennett é a privatização narcísica do eu, por oposição a interacção pública, não será o sexo um risco a esta. Quer-me parecer que o erotismo é tendencialmente bem mais narcísico, idolátrico, logo bem mais inimigo do espaço público.
Não conheço Sennett, mas, da curta investigação que fiz, o que aqui pretendo em nada atentará ao que defende.
Aqui, o sexo funciona como meio de reconhecimento e reciprocidade, consciência de que sem um não há o outro, longe da desimportância que a industrialização trouxe aos seres e que por conseguinte, parece-me, será o ponto de partida daquilo em que consiste o problema da tese de Sennett.
Vive-se uma necessidade de reencontro, mas que em muitos casos descamba, sim, numa tirania narcísica, mas que com a minha noção de individualidade - oposta a elite (catolicismo, nazismo, etc.) - se enrobustece por via do eclectismo: se compreendermos o todo, ou tanto quanto possível, a egolatria dissolver-se-á. Possivelmente... :) - Tentativa de ressalvar a preocupação a que dedico o tema da individualidade, que, repito, em nada conjugo com individualismo.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Já sei a resposta:

O título "Invicta" ou divisa textual "Antiga, muito nobre e sempre leal e invicta" foi-lhe atribuído (decretado) por D. Maria II, sendo ministro Almeida Garrett.

E deve-se ao seu heroísmo durante o cerco histórico.

Mas a lealdade vem do século XV, quando os burgueses portuenses apoiaram o Mestre de Avis na luta contra o Castelhano.

Camões usa o termo: "Lá na leal cidade..."

A toponímia revela todo esse heroísmo. Afinal, não andava longe devido à toponímia: as ruas contam a história. Não sabia que tinha sido a Maria e o Garrett.

Afinal, tinha a resposta aqui num livro... :D

Lugones disse...

Caro Tiago, agora é que li o seu poema. Admiro a frontalidade do texto- não é para qualquer um misturar em três quadras as palavras ânus, vagina e foda, além de uma referência a um broche que enche as medidas da boca da amada.
E o que é isso da coisa dina? Dina é uma referência à amada, que se chamava Dina, tal como a cantora que "pegou, trincou, e meteu na cesta"?
E então, está decidido a concorrer ao concurso da poesia à desgarrada?
Não sei se vou concorrer, escrever os textos não é complicado, pior é declamá-los, correndo o risco de ser um concorrente do ídolos.
Há que deixar essas tarefas para as Susan Boyles da nossa contra-cultura!

fallorca disse...

A intensidade do sexo mede-se/afere-se pela tesão, e o resto é paleio.
Mas palear este poema ao ouvido da/o parceira/o deve ser de empinar o leito, se ele/ela não for mouca/o.
Como grafitei nos idos de 75 na igreja da Praça de Londres: «Abaixo a hipocrisia, viva a tesão permanente» e nada de confusões com o incómodo priapismo.
Os meus vagamente entesados cumprimentos e até logo na Trama

Tiago r disse...

Boa, Francisco! Agradeço! :)

Tiago r disse...

Caro Lugones,

O Bocage era bem mais exemplar, mas obrigado, quis eu pagar o meu tributo a essa arrebatora entidade que é o Sexo.
Ahah, não se trata da Dina, não. «dina» é a forma sincopada de «digna». Para que a rima surgisse mais rimada, optei pela forma que refiro.
Não vou concorrer, pela mesma razão que o Lugones, não tenho jeito para audiências :)

Tiago r disse...

Caro Fallorca!

«deve ser de empinar o leito», ahahah, excelente, podia fazer parte do poema :D
Curti esse grafite! E logo na igreja, a murcha! Será que ainda lá está? O grafite, claro; a igreja, com certeza. As coisas más perduram sempre...
Abraço, até à Trama!

{anita} disse...

Este poema foi tão elogiado pelo Fallorca que tive mesmo de vir espreitar!
bem, tantos comentários que ele tem despertado...
Acho que é como dizes no titulo: do amor. é mesmo assim. Não vale a pena complicar algo que o autor diz com tanta clareza :)

Tiago r disse...

O que realmente me interessa no poema, é o que ele diz/pretende, pois assumo que não se presta a grandes estéticas. Mas quanto a isso, tenho ainda a acrescentar: o intelecto não é um feira de vaidades... O intuito, aqui, era essencialmente desequivocar.
É tal como entendeste :)

Denise disse...

Ahaha, adorei!
E a chave está nos dois últimos versos.
Venham mais ;-)

Tiago r disse...

Exacto, Denise! :)
Não pude deixar de verificar que a agudeza de análise irrompe toda do feminino. Mesmo o segundo anónimo que aqui comentou - julgo ser nítido - aposto tratar-se de uma anónima... :P
(isto, sem querer parecer redutor)

Goggly disse...

Gostei deste, precisamente. E apesar de toda a verbosidade que entrevi nos comentários, não deixa de ser irónico como homens sapientes ainda se deixam enfeitiçar pela «individualidade» das mentalidades.

Tiago r disse...

De novo obrigado.
Comentário enigmático, esse...

Goggly disse...

Tiago,

depois veja no Corcel a nova postagem. Tentei imprimir no artigo esse cunho tão característico da sexualidade, mas não sou de modo algum dotado nessas matérias.

Goggly disse...

Sim, tem razão: o comentário é de facto enigmático, peço desculpa. O que pretendia dizer é que, apesar da sobeja liberdade - que esqueceram de mencionar nos comentários -, homens de grande inteligência ainda não se conformam com essa suposta individualidade sexual. Por muito que seja a sua agudeza de espírito, a sexualidade é sempre tema de grande loquacidade, o que é preferível evitar. Mas talvez seja um terrível equívoco meu. Queira desculpar entretanto o conto do André: não é suficientemente agradável.

Tiago r disse...

Até concordo, Goggly. Mas talvez essa extrema loquacidade que refere se deva a todo o historial opressor que desde sempre tendeu a abafar o tema. A sua observação é um facto, mas talvez seja natural que assim aconteça. :)
Quanto ao seu conto, é o seu, não tem de se desculpar.