Terça-feira, 6 de Dezembro de 2011

Treva Universal


Quero ir brincar para a praia à noite quando a espuma de uma ondulação pequena fosforesça de uma lua acesa sobre a paisagem, lasciva, inocente, propositada. Quero ir brincar contigo sejas tu quem fores. Se fores tu quem lá estiver — sejas tu quem fores — será contigo com quem hei-de brincar. Se fores tu — sendo tu quem és — ainda melhor.

Brincaríamos nessa noite sem ciência nenhuma. Ínscios neófitos. Libertaríamos risos insanáveis de tão livres e ignorantes; nem nos incomodaria a areia que se haveria de entranhar nas cavidades dos nossos corpos; riríamos na insciência irrevocável do nosso ser tão-só existente. A areia seríamos nós: seus infindos grãos ridentes de luar. Uma celebração sem o sabermos — nada mais cognoscível.

Nada mais cognoscível — não saber nada!

No fim, eu dentro de ti e tu me cobrindo, que é estar dentro e fora de tudo, que é estar dentro e fora de nada. Como o Cosmos. Abstracção concreta. Sendo o que imanentemente somos: treva universal.

Sábado, 26 de Novembro de 2011

Sou de facto o Diabo


Nem sou o revoltado contra Deus, nem o espírito que nega. Sou o Deus da Imaginação, perdido porque não crio. É por mim que, quando criança, sonhaste aqueles sonhos que são brinquedos; é por mim que, quando mulher já, tiveste a abraçar-te de noite os príncipes e os dominadores que dormem no fundo desses sonhos. Sou o Espírito que cria sem criar, cuja voz é um fumo, e cuja alma é um erro.

in «A Hora do Diabo», Fernando Pessoa, Assírio & Alvim

Domingo, 23 de Outubro de 2011

Os Anos de Ouro da Pulp Fiction Portuguesa


Uma publicação Saída de Emergência
Esta obra trata-se de uma antologia de treze contos de vários autores, entre os quais me encontro com o título O Inconsciente.

A editora Saída de Emergência lançou um concurso de contos em inícios de 2009, dentro do género  literário  da pulp fiction, ao qual concorri. Soube, por volta de Outubro do mesmo ano, que o meu conto tinha sido seleccionado para integrar o projecto. Encontrava-me em Hamburgo há já um mês, e onde permaneceria por mais dois, sozinho mas contente, pelo que o fiquei mais ainda. A notícia era sinónimo de que um texto meu ia ser, pela primeira vez, publicado em livro. Entretanto passaram-se cerca de dois anos sem que o projecto fosse levado avante, com muita pena de todos os envolvidos, para finalmente, a 21 de Outubro de 2011, a Antologia ver a luz do dia.

As Origens d' «O Inconsciente». O meu conto foi primeiramente submetido a um outro concurso de contos, criado pelo festival de cinema de terror Motelx, de 2007, um concurso igualmente consagrado ao género do terror. Aliás, foi precisamente devido a este concurso que decidi escrever o conto. Já há alguns anos, quando me propus prosseguir com a criação literária (abandonado o verso, dava lugar à prosa), decidi que haveria de tentar as várias áreas e géneros literários (desde que, claro, o achasse plausível dentro do meu registo e interesse). Um exercício a que, na altura, chamei de «poligrafia»: através da literatura infantil, juvenil e adulta, deste género ou daquele, exploraria, ao meu estilo, temas de interesse pessoal. Sem compromissos, porém. Projectos tenho-os, em desenvolvimento, mas é este conto o primeiro a sair em formato físico. O Inconsciente foi criado já dentro daquela intenção poligráfica que menciono acima. Quis pôr-me à prova, enquanto potencial escritor, dentro de um género que não era o meu. Talvez por isso o resultado não tenha estado à altura: O Inconsciente não é um conto de terror. A narrativa acaba antes por revelar que o «terror» tem outra face que não a do «monstro-protagonista» (que nem sequer é monstro!) da história. Talvez também porque, por si só, o género do terror não fazia, nem faz, parte dos meus objectivos literários. O ambiente, e o sangue, talvez provoquem um certo horror, ou inquietação, como o disse um amigo meu, o Gonçalo Neto, designação que também eu prefiro, pois que, tal como eu e um outro meu amigo, o Frederico Correia, concluímos, existem cenas cuja violência é razoavelmente gráfica. Mas a minha intenção é que o sangue derramado seja, aos olhos do leitor, justo (dentro do seu contexto)... Se em parte falhei no exercício a que me propus (o da poligrafia), foi, contudo, uma falha bem-vinda, não só por ter sido seleccionado para a Antologia que aqui divulgo mas porque o resultado do que escrevi me agradou. Constatei que jamais poderei escrever o que quer que seja sem que nisso me reveja; que jamais poderia criar para responder simplesmente a um género ou, ainda menos, para agradar a um público. Acabei então por escrever sobre algo que é do meu interesse e que, em vez de assustar (se bem que o terror possa muito bem ser mais do que isso), convida a reflectir sobre a mentalidade humana que, a meu ver, se encontra ainda cheia dos vícios e dos medos herdados de uma estrutura mental entrevada, preconceituosa, que, nesta ficção, faço encarnar em monges,  o que muito se deve, naturalmente, ao papel não menos mau que a Igreja desempenhou ao longo da História, e também que desses vícios de percepção podem resultar consequências graves... O conto trata-se, então, de uma espécie de alegoria, que remete para pontos como a cegueira do dogma e da crença, e como ambas as categorias podem castrar a liberdade e o potencial humano. O terror do preconceito ainda existe, difundido pelo mundo como um legado peçonhento, como uma praga que persiste: é essa a preocupação que subjaz à intenção moral do texto. Assim, a narrativa vela antes, aos meus olhos, por componentes tácitas de cariz reflexivo, com a devida literatura em volta a enfeitar, cujo ambiente, felizmente, parece enquadrar-se nos parâmetros da Antologia para que fui seleccionado. De resto, a minha ligação com a literatura pulp passa apenas por três traduções que fiz de três contos de H. P. Lovecraft (Ed. Saída de Emergência, vols. I e II) e por umas leituras de BDs do Conan, o Bárbaro.

O título do conto: uma perspectiva analítica. O título, «O Inconsciente», é o nome que o protagonista adquire na história. Foi escolhido como jogo de palavras, ou metáfora, para o inconsciente recalcado que a Psicanálise nos deu a conhecer, isto é, o espaço mental onde  se desconhecem os factos por se encontrarem toldados. O  protagonista habita um subterrâneo, onde se encontra fechado, anestesiado, à margem do real. O subterrâneo e o protagonista interagem, então, como um só, sendo este um produto daquele e aquele a realidade que este assimila sem questionar. O Inconsciente é a criatura cuja existência é submetida à clausura pelo Consciente repressor, que no conto adquire a forma de monges soturnos que impõem ao Inconsciente o «recalcamento». Os monges representam a censura, o preconceito, essa força maior contra a qual, mais tarde, o protagonista se rebela, e de uma forma comportamentalmente desastrosa, resultado daquilo que foi reprimido à força e mantido num estado de latência anormal vindo depois à tona. Como tudo o que foi já profundamente lesado e não é possível reparar, há um inevitável retorno ao «recalcamento» por parte do protagonista... Em suma, o que se quer dizer com isto? Quer-se dizer simplesmente que o melhor é abdicar de imposições, caso contrário as consequência poderão revelar-se graves.

O Inconsciente levou 24 dias a ser escrito, segundo me lembro. É, para mim,  pouco tempo, que preciso dele para escrever e ajeitar o texto, intervalar e voltar a ele. Mas por acaso a caneta fluiu (por acaso até foi escrito ao computador). Talvez a tensão imposta por um prazo tenha tido influência. Quando descobri o concurso do Motelx, 24 dias era o tempo que restava para as submissões. Comecei então a escrevê-lo. Diante do ecrã, surgiu-me a frase: «Do esgar quadrado da sua boca aberta vertia, crispado em degraus de som cadente, o riso evidente da demência danosa.» Serviu-me de mote para prosseguir. Claro que, posteriormente, mesmo depois de saber que não tinha sido seleccionado, lhe fiz vários melhoramentos. E quando soube que ia ser publicado na Antologia pulp, mais ainda. Todavia o texto foi apenas mexido a nível de pormenores estilísticos, mais uma frase ou pequena ideia extra. A história e seu intuito permaneceram intactos. A Antologia consiste ainda, em termos gerais, num outro aspecto que lhe oferece interesse extra: cada autor tem uma biografia fictícia. Passo a explicar. A pulp fiction é um género literário que remonta a 1896, difundido no formato de revista nos EUA,  inicialmente, e que, julgo não estar longe da verdade, atinge maior expressão estilística e temática com Arthur Conan Doyle (Sherlock Holmes), H. P. Lovecraft (The Call of Cthulhu) e Robert E. Howard (Conan, The Barbarian), lá por volta das décadas de 20 e 30 do século passado. Fica aqui uma ideia para os menos entendidos no género, como eu. Mas existem mais autores que conheço e que não sabia fazerem parte deste género, que é bem mais abrangente do que eu imaginava. Um pouco à guisa do género da Ficção Científica, que também é mais do que aparenta. Portanto, esta Antologia ficcionada consiste em fazer de nós, autores, pessoas que teriam existido entre as décadas de 20 e 70 do século XX, em Portugal, reinventando assim um género que nunca àquele tempo existira no país. Na minha pseudo-biografia (que na obra precede o conto), morri com trinta e um anos  e vi, enquanto ainda gaiato, Sidónio Pais a ser assassinado. Não me lembro de nada! Devia ser do álcool que, quando já adulto, bebia: segundo também o meu biógrafo, eu era muito dado à noite. Toda esta conjuntura ficou a cargo do organizador do projecto, o Luís Filipe Silva, que abre o livro com uma introdução que tratará de pôr o leitor a par deste curioso entremez. 

As ilustrações. Não podia deixar de falar nisto. Quando me foram apresentadas as ilustrações que acompanhariam o meu conto, fiquei estupefacto. Estavam bem-feitas, muito interessantes até. Mas não tinha sido isso a causa da minha estupefacção. O que assim me deixara, fora o facto de não ilustrarem, senão por meio de referências vagas, a história que eu escrevera. Havia um grande exagero naquelas imagens, comparativamente ao texto. Foi-me depois explicado que, de alguma forma, também assim o havia sido lá nos idos tempos de sucesso da pulp fiction, e que, se era para fazer uma versão dos anos de ouro da pulp que Portugal não teve, seria preciso situar o projecto, também no que tocava às ilustrações, no contexto abordado. Por isso, para quem se deparar com esse desfasamento, fica já preparado. Aperceber-se-ão que as personagens ilustradas nada têm que ver com nada. É como se fossem ilustrações de outro conto qualquer e estivessem ali ao engano... Mas o fundamento é que este é um projecto com tema, e que segue esse tema. Pretende recriar algo num registo tal e qual existia na pulp de há cerca de oitenta/noventa anos e, com base nisso, fac-similar os anos de ouro de um género que nunca teve expressão no nosso país. E assim se fez. Os autores pulp faziam os seus textos ser acompanhados de ilustrações que muitas vezes compravam já feitas, quando não tinham quem lhas fizesse, cujo resultado, nem sempre o melhor, é também o que esta Antologia pretende recuperar.

Bem, e agora é ler!
Este conto dedico-o, aqui, ao Gonçalo Neto e ao Frederico Correia, que a ele estiveram de alguma forma ligados aquando da sua criação.

Quarta-feira, 21 de Setembro de 2011

As Trelas da Criação

«E escutá-los-emos [aos criadores] favoravelmente, porquanto só teremos vantagem, se se vir que ela [a criação] é não só agradável, como também útil.»
Platão, A República, Livro X, Gulbenkian (Trad.: Maria Helena da Rocha Pereira)

The Lords appease us with images. They give us books, concerts, galleries, shows, cinemas. Especially the cinemas. Through art they confuse us and blind us to our enslavement. Art adorns our prison walls, keeps us silent and diverted and indifferent.
James Douglas Morrison, The Lords

Nos poetas, sempre me desagradou a forma emotivamente empinada e entoada com que recitam os poemas: sempre me pareceu dar-se mais importância ao elevar do nariz, do que ao que o poema diz. Talvez porque não diga muito...

A criação (que aqui pretende incluir literatura e arte) dos nossos dias faz ainda amiúde evocar a frase que Isidore Ducasse dirige aos escritores, se lhes opondo: «Se sois infelizes, não é preciso dizê-lo ao leitor. Guardai-o para vós». Podemos encontrá-la nas suas Poesias; e esta também: «o homem não deve criar a infelicidade nos seus livros. É querer, a todo o custo, considerar apenas um dos lados das coisas. Ah, que maníacos uivadores vós sois!» A criação artística em geral - em que por exemplo o cinema e a música são também especialistas e dos sectores artísticos mais influentes -, segundo a forma como é adoptada pelos respectivos criadores, redunda no seu mais pleno contrário: a moda decadentista,  uni-prismática, de publicitar os próprios males, ou a ideia de que a Vida é má e infeliz através de um mero caso,  de uma mera perspectiva. A vaidade da decadência tão-pouco destrói para voltar a criar: fica-se pelo definhamento, pela tendência puramente auto-flagelativa, barrando a margem de manobra à potencialidade da perspectiva e acabando no fetiche da queixa. Uma masturbação que executam com o órgão errado...  Parece ser essa a única resposta que têm a dar ao estado das coisas, ao regime social estagnante em que vivemos - isso, sim, é mau! - que nos quer plácidos e domados e infelizes, e que, além do mais, é totalmente indiferente a tais amuos artísticos. Vejo-nos chegados a um ponto em que a dor, essa condição tão natural ao seu humano, que nos incita à expressão artística de forma a transformá-la, se encontra no patamar do exibicionismo. É preciso uma certa capacidade de auto-educação para não cair nos mesmo buracos que os outros, que se limitam aos estímulos do mimetismo.

Com o cristianismo fez-se da mortificação atributo do ser vivente. Em vez de se caminhar, rasteja-se. Vivemos uma humanidade de crucificados e lamentosos, de gente perdida, submetidos a uma herança colectiva tendencialmente desairosa, que assumimos desde pouco mais de dois mil anos, e tudo porque aprendemos a crer que a possibilidade nunca está aqui mas além. É uma crença entrevada. Uma herança de que, hoje camuflada por uma era pretensamente moderna, não abdicamos contudo: não conseguimos, não nos concedemos ainda a liberdade de não imitar. O mimetismo, enquanto fenómeno de padronização comportamental, opera por dever e é estulto. Prometeu roubou o fogo em vão; a queda de Lúcifer é utilizada como mera metáfora de perdição, quando devia ser vista como a única queda admissível... A queda de Lúcifer é a libertação de Lúcifer: não caiu, atirou-se, para se livrar da orientação opressiva do grupo e do líder. Prometeu trouxe-nos o fogo dos deuses, para que os humanos vivessem. Mas tê-lo-emos aceite?

Não é possível falar-se de uma humanidade linearmente experiente porque a humanidade encontra-se num estado de juventude constante, como se estivesse sempre a rejuvenescer (e aqui a acepção é negativa). Há uma evolução, claro. A humanidade clássica é diferente da moderna. Liga-as um legado histórico, claramente. E se há uma evolução, há uma passagem. Só que essa passagem, parece-me, é do tipo estafetas... Ora, o legado histórico, por si só, nunca poderá ser suficiente numa humanidade que se interrompe constantemente - morre o pai, continua o filho, que terá de aprender tudo outra vez - e que desde sempre, para mais, foi mal governada. A humanidade é, em primeiro lugar, fragmentária, e por isso está submetida a uma aprendizagem que se interrompe, como a própria vida, destinada a recomeçar noutro lado, na tábua rasa de outro corpo e outra mente. É algo cíclico, quase vicioso: há uma paragem e um voltar a arrancar, e um retorno a essa dinâmica. Continuamente. Daqui podemos inferir que a humanidade, num sentido profundo, nunca aprende de facto. Pelo menos de uma forma eficaz, consecutiva, triunfante. O processo de aprendizagem a que está sujeita é reincidente: fá-la sempre cometer, século após século, geração após geração, aquilo que considera erros. Não existiu, até agora, uma passagem a um estágio diferente, realmente diferente do anterior; e se existe hoje um conceito de humanidade, tal só foi conseguido através da imposição de leis. E se há uma tentativa de superação desses erros, deve-se, talvez, aos  seus mais preocupados agentes: os que cultivam a Arte e o Pensamento. Só esses delineiam o devir. Mas onde estão eles hoje? Pior, é que os agentes patogénicos, como o Governo e suas Instituições, são o verdadeiro sinónimo de Estado, que é de base empresarial, isto é, parasitária, o que, inevitavelmente, acaba por influenciar todos os elementos constituintes de uma sociedade. Os Estados, que são organismos estatistas, promovem a estupidez, a banalidade e a subserviência. Não lhes interessa o indivíduo e seu colectivo crescimento intelectual, cultural, humano, mas unicamente o crescimento económico, infra-estrutural e tecnológico do próprio organismo estatal, como se independente dos seres que o promovem e os seres que o promovem fossem meros animais que, cegos, trabalhassem para o organismo. E pelo andar das coisas, são-no. Há até quem goste! E pouco mais, a menos que nos despachemos (e chegaremos a tempo?), se poderá fazer quanto a consciencializar e erigir de facto uma Humanidade, essa noção ainda tão abstracta, que serve senão a demagogia, pois que o ser humano, sendo limitado de tempo de vida, carente de atenções e sofredor de profissão, é de igual modo limitado em si, de vistas curtas: nunca concretizará o que aprendeu porque a única forma de o fazer é passando o conhecimento a alguém que está ainda a crescer, e que tem de aprender tudo do princípio, e, na maioria dos casos, aprender o mesmo que aquele que o ensina aprendeu, cometendo, por isso, todos os erros de uma vida (uma forma de aprender, diz-se e às vezes até resulta, mas que, à escala aqui tratada, é uma reincidência). A Humanidade é, paralelamente, constituída por ilhas de uma subjectividade feroz e índole aniquiladora, natureza que um sistema monetário vazio só ajuda a fomentar. E os agentes da alienação que funcionam em concordância com o Estabelecido, como a comunicação social, o entretenimento televisivo e cinematográfico, a má literatura, as instituições escolares/académicas, a própria família, a própria cultura, a religião católica, não olham senão à possibilidade competitiva de lucro, para obtenção de distinção e poder. É como dizer que a esterilidade é suficiente: a ilusão económica de que o dinheiro valoriza é o bastante para se pensar que se vive.

A Igreja é das mais descaradas e sardónicas das instituições: a empresa do Bem. A grande responsável por criar anhos por encomenda dos Estados. Até que os Estados, tornando-se suficientemente poderosos para já não temerem a Deus, foram dispensando a Igreja. Mas os cordeiros já tinham, contudo, sido moldados, molde esse que nos afecta ainda. Agora a Igreja continua servindo o Estado, e o Estado vai deixando-a estar. A aniquilação do valor humano, per capita, nasceu deste interesse mútuo. Ao indivíduo sempre lhe foi dito: «Não serves para nada senão colectivamente e fazendo pela "Entidade" (Estado, Deus, qualquer coisa desde que não exista em concreto...) que te é superior.» As instituições são, portanto, a mordaça do espírito humano. O nosso legado, são trelas. A nossa vida, um morbo. Não há uma comunidade de indivíduos, mas de sujeitados.

Hoje, essa herança espiritual de lesa-humanidade revela-se por sucedâneos, elementos com nome de código que não já o religioso, antes transversais na imagem mas com a mesma base, que continuamos regando aqui e ali sem sequer nos apercebermos: os penosos de hoje não sabem porque penam, acham simplesmente que têm de ser assim. O mal instalou-se neles porque está por todo o lado, disfarçado de Bem. A alternativa não é melhor ou menos alienada: substituírem o Deus pelo Estupor e, em vez de irem à missa, não irem a lado nenhum... Penam por aí, à medida que lhes vão sugando a vida. E os criadores, que deviam dar resposta a isto, acabam por abusar do seu próprio potencial criativo que, no fundo, não mata ou mitiga nenhum tipo de sede, e tudo em nome de uma exposição viciosa e desejosa de aplausos emotivos. Aposta-se nas veleidades de um estilo próprio, pretensamente cativante, que muitas vezes o é de facto, mas que serve apenas a vaidade própria: é inútil, não exalta os espíritos, antes os tolda. Por isso a criação, esse instrumento que devia ser uma «arma» (a única, aliás), que tem todo o potencial para o ser, que devia servir de ameaça constante à estagnação dos seres, se me revela estéril na grande maioria dos casos. E quanto mais para cá no tempo, pior. Tenho ouvido criadores sugerir, mesmo que apenas tacitamente, ser por reconhecimento e compreensão do outro: um «somos iguais!» caquéctico e limitador, em cujo invólucro se encontram em pateta comunhão... Mas por que se desejam tanto mal e ainda assim se abraçam? Não compreendo! A ausência de uma análise centrífuga e nula autognose, distraídos antes por um culto da decadência e da mortificação fetichistas, permite-lhes apenas que se deixem como que submersos, de mãos bem dadas, no lago estagnado das suas próprias lágrimas comuns, para onde ainda convidam os outros, de forma a se sustentarem reciprocamente na permanência desse seu inveterado mal-estar... É a nova religião!, cujo deus é a própria vaidade da auto-decomposição, do queixume, do desprezo pela vida, do deixa andar.

«Eu sou uma jovem fera pagã, em busca das melhores mentes do meu tempo.» Esta frase costumava ecoar-me na mente como um uivo... Eu era mais jovem e ainda cria, mais do que hoje, na Possibilidade. Precisava apenas de saber que eles existiam, esses jovens cheios de vida, espírito e vontade própria (que é como quem diz atrevimento), que não se deixavam lesar completamente pelo mal circundante e que por isso me animariam. Ainda vislumbrei tal luz em alguns, que a custo se iam e vão ainda esforçando por compreender e escapar. Espero vir a conhecer mais. Tenho conhecido uns poucos. Procuro, como procurava, apenas uma coisa nas pessoas - talvez aquilo que mais lhes foge: a vida em si. É a minha forma de me manter de harmonia com aquilo em que acredito: estar vivo em mim, à imagem do poder enérgico do Sol e da maviosa Lua - estão ali e pronto, firmes no dever para consigo. A sua condição é o brilho. E olhai, como são úteis outrossim aos outros! As ilusões do ser humano, as projecções e as introjecções a que se prende, não o deixam realizar-se enquanto ser vital, único, bloqueiam-lhe antes o espírito. Sentados na cadeira do próprio mal-estar, fingem que não é nada assim, habituados e até orgulhosos, pois há quem goste deles e nisso se refugiam. Inseridos como estão nas malhas alheias, não passam de uma armadilha dentro da Armadilha. Uma Armadilha que tem sido senão continuada. Da mesma maneira que o sentido de aventura vai declinando para o visionamento virtual, criando desventurosos ineptos, toda a vida se vê abocanhada pelo alienante monstro hodierno.

Em termos gerais, i. e., em todos os sectores da sociedade, isto só pode traduzir-se em auto-deterioração. Como à sua volta tudo é «assim», e o assimilam, ninguém o tenta superar. O Estabelecido tem-nos pelos colarinhos. São seus súbditos. À maioria fá-los, inclusive, odiarem-se uns aos outros, numa competição ridícula e humana: o ser humano não é mais do que um competidor, é ainda mero animal, que vive tentando superar o outro, quando a tarefa devia ser superar-se a si mesmo.

É um facto bem conhecido o quão mal correm os tempos. Por isso mesmo cada indivíduo, em vez de se deixar infectar, devia fazer-lhes frente espiritualmente e através da força, se necessário, de forma a não deixar o corpo e o espírito prostrarem-se diante do estado das coisas, contrariando o que a televisão nos ensina. Para isso, seriam precisos agentes (as próprias pessoas) que ajudassem, por si ou em conjunto, a esse movimento, a essa acção. É necessário desencadear reacções, por todo o lado, de todos os lados, coisas que os espíritos sedentários e reaccionários não tolerem, de tão atados que estão às suas vidas sentadas. Já que os líderes políticos de nada servem, os outros, os que deviam encarnar a pele de líderes espirituais - como os criadores de todos os géneros artísticos - faziam bem se optassem por outra postura nesta Terra desolada. O que há a transmitir aos seus semelhantes é empresa de grande responsabilidade, já que as escolas deste mundo, e outros agentes de transmissão de conhecimento, pouco ou nada transmitem. A arte é precisa enquanto resposta e ataque, não enquanto simples auto-exposição vaidosa.

A tarefa do ser humano na Terra: suplantar o macaquinho mimético que ele é, quando imita sem reflectir. Combater a estultícia e a redoma do ego egotista. Contrariar o Estabelecido. Enquanto a criação for estéril reprodução ecóica, nunca poderá ser aquilo a que se propõe - criar! - nem quem a cria um criador, se entendermos por «criação» a «auto-superação». Para isso, é necessário primeiro a desconstrução do que nos rodeia e a nossa própria, para depois, peça a peça, empreender nova construção. Nunca para chegar a uma meta: isso é só mais outra miragem! Nada na vida é finalista, nem mesmo a morte, pois que mesmo esta nos reintroduzirá no mundo e no cosmos como parte integrante (e talvez até mais funcional, em muitos casos, do que quando vivos) por meio da decomposição física. Nem então teremos atingido um fim, apenas um novo começo, uma forma diferente de vida.

Sexta-feira, 5 de Agosto de 2011


A consciência é
Não haver dentro e fora da Cabeça
Apenas o espaço que atravessa tudo
Como não haver
Dentro e fora do Universo
Apenas um espaço
                                                                           contínuo

Quarta-feira, 8 de Dezembro de 2010

Maria


Eram casados há vinte anos. A Frustração passava o tempo sentada no sofá, depois do trabalho e aos fins-de-semana, à espera que Maria a chamasse para a mesa. Há vinte anos que era assim. Maria pensava, É melhor que estar sozinha. Há vinte anos o iterava, como sentida e silenciosa reza. Maria era uma mulher fraca, de índole precária, resultado actual das tramas dos séculos, o que a viera a moldar numa grande e exclusiva empreendedora das refeições da sua Frustração, que dedicadamente nutria sem questionar. Pouco conhecia da vida. Jamais alguma vez havia nela reflectido com suficiente desapego, pois que sempre a tinham ensinado a pegar-se muito às coisas, para que não ficasse sozinha. Sempre a tinham ensinado, dado a entender, que, por si só, ela não tinha valor. Sentia por vezes muitas coisas estranhas, controversas, em relação à sua vida e à sua pessoa, mas não as sabia compreender nem gerir, e, após esses curtos momentos de uma quase-consciência, não mais que sensível, acabava sempre por reprimir a sua pessoa e por esquecer a vida, recidivamente tornando a si, à Maria, que era aquilo que haviam feito dela. Só. Ela costumava viajar, nas férias, na companhia da sua Frustração, a qual pouco lhe ligava senão por interesse de algo, como a comida ou a roupa passada. Costumavam ir até à terra, nas férias. A Frustração não sabia cozinhar, nem engomar, por isso tinha a Maria. A Frustração com que Maria fora casada sentia-se frustrada e era costume descarregar-se sobre a esposa, por proximidade. A sua Frustração também havia sido, desde pequena, encaminhada para se vir a frustrar, pelo que era o que era. Mas, apesar de tudo, Maria garantia-se, Assim estou segura. E julgava de facto estar, pois, além do mais, tinha os filhos, frutos de duas noites de união com a sua Frustração, aos quais ia buscar força extra para recalcar, sob o peso de fantasiosas projecções acerca da unidade familiar ― como sempre aprendera ―, toda a sua desilusão. E assim, ao longo dos anos desapercebida de si, Maria ia conseguindo força para continuar junto da sua Frustração. Fiel, cansada e iludida: como o preceito a incumbia.

Porém, quando menos esperava, preparava-se ela para começar a fazer o jantar de todas as noites, a sua Frustração levantou-se do sofá e foi ao pé dela dizer-lhe que se ia embora! Para nunca mais voltar! Que estava farta de ser frustrada! Maria não queria acreditar no que ouvia, não queria crer que estivesse realmente livre da sua Frustração, depois de todo o esforço e empenho de uma vida, pelo que se inundou de lágrimas. Lágrimas que, embora de alívio, não podia entender como tal, pelo que rolaram com viciado desgosto.

Desse ponto em diante, passou o resto da vida sozinha. Sem nunca perceber. Um perene ar atónito no rosto. Mas sempre tinha as recordações, a sua família (que dela só então passou a sentir pena) e os filhos da sua Frustração.

Sábado, 23 de Outubro de 2010

Espéculo


Vim de onde ainda não era, sem nada vestido. De um sítio desconhecido, como este. Mas não como este, que é. Donde vim, nem o sítio nem eu éramos. Agora, neste sítio em que me encontro, já sou, como o sítio. Daqui a algum tempo, depois de por aqui ter passado, regressarei ao não-ser. Mas ao a seguir, que será igual. Mas eu, diferente: irei vestido. Pois hão-de ainda haver pessoas que me quererão ao seu nível, ignorando o facto de que, por essa altura, tão-pouco me aguentarei em pé.

Terça-feira, 31 de Agosto de 2010

Ego sum qui sum


        Tu que me vês daí, aqui sentado sobre a esbatida, húmida e dura areia, molhado, torrefeito pelo teu Sol. Contemplo-te sem perguntas porque não as há, não as pode haver: no-las deste sem a hipótese de no-las responder. Há perguntas. Mas uma pergunta só é válida quando a resposta não é de natureza írrita, impossível.
        Existes na minha cabeça porque te penso. Eu existo como se me tivesses pensado. Porém parece-me que não te sei como tu a mim. Contudo ainda, imagino que me dizes: «Tens-me frente aos olhos e insistes em não me ver.»
        Entendo-te sem te compreender (se bem que às vezes te compreenda mas te não entenda).
        Mas eu percebo que não me possas falar. Eu percebo que não hajas o que dizer. Também eu não falo contigo mas Comigo sobre ti.
        Tu — és um mágico que me encanta, e não és senão o Encanto que desse mágico emana.

Sábado, 21 de Agosto de 2010

(s/ título)


Caminhava pelo passeio que beirava uma estrada preta e onde, sentado no lancil, um pequeno chorava.
«Por que choras?»
Olhou-me rosto molhado.
«Por causa da confusão.»
«Que confusão?»
«Se a pudesse dizer não era confusão.»
Continuou a verter lágrimas e eu prossegui passeio fora.

(Há que saber abandonar)

Quarta-feira, 11 de Agosto de 2010

Sou de facto o Diabo


Sou o eterno Diferente, o eterno Adiado, o Supérfluo do Abismo. Fiquei fora da Criação. Sou o Deus dos mundos que foram antes do Mundo - os reis de Edom que reinaram mal antes de Israel. A minha presença neste universo é a de quem não foi convidado. Trago comigo memórias de coisas que não chegaram a ser mas que estiveram para ser.

A Hora do Diabo, F. Pessoa, Assírio & Alvim

Sábado, 31 de Julho de 2010

Indivíduo-indiviso-inteiro


Se se semeia um pensamento belo num terreno de opiniões inférteis, o mesmo não florescerá. Terá o indivíduo que o pense ser, também, a sua terra. Indiviso e inteligente, reúne as condições favoráveis. É ele a árvore da sua vida: tronco ramificado, uno mas multifário. Inteiro. Assim se associa à vida que pensou. Bela.

Sexta-feira, 18 de Junho de 2010

Incipit Saramago



Saramago foi um homem que se conseguiu, que se ganhou. Nem a sua morte se pode considerar uma perda porque tudo o que vem dele é só ganho; com os seus eventuais defeitos e qualidades, felizmente. A sua morte só traz perda na medida em que concede uma maior consciência de que o mal da inconsciência vai perdurando. Isto sim, é de pesar. Saramago está em nós. É força ubíqua. Lê-lo, ouvi-lo, pensá-lo, fazê-lo é ganhar. Saramago é uma parte da construção de que, enquanto humanos dignos (se alguma vez o decidirmos ser), precisamos. Se agora somos nós que o somos a sua memória ―, então Saramago (re)começa hoje.


18 . Junho . 2010

Quinta-feira, 3 de Junho de 2010

O som é o silêncio a explodir

Hamburgo, 11-2009












André Catarino

Domingo, 23 de Maio de 2010

Corto Maltese






















20-05-2010

Quinta-feira, 18 de Fevereiro de 2010

Berlim


















Love

Quarta-feira, 20 de Janeiro de 2010

Desiderato (ou: meu deus!)


Meu deus. Que íntimo envolvimento tenho com a figura feminina, que vontade de envolver esses seres de olhos de dádiva e formas de duna. Como me dá para as querer abraçar, fruir, penetrar. Sinto ternura a cada movimento corporal seu, a cada sensação que expressam só no corpo.
Mas como é quase estranho sentir isto por todas. Pelas que vejo que me aprazem. Ah, como as envolveria a todas se pudesse, se houvesse como o fazer senão pelo modo que me é unicamente possível — nunca as envolver, ter só a vontade íntima de.
Não tenho medo nenhum de amar. Só que me restrinjam o amor. Sinto amor só por ver, ao olhar. Por isso amo todos os dias, como quem vivesse mil vidas em muito pouco tempo, sem que as viva de facto senão a própria e o pessoal desejo impossível de viver as mil.
Meu deus... Conhece-se tantas vidas e vê-se tantas mais...
Marraquexe: um exemplo. Estranha me apareceste, de tão cheia que te vi. Tão cheia ou foi só a chegada? Houve uma primeira comoção à chegada que iluminou a ideia com que para sempre ficarei de ti.
Aproximei-me demasiado dos seus olhos. Do seu ténue sorriso que hesitava perante o meu não sorrir de todo. Não desviei porém o olhar. Tinha um corpo total, ao visível, de doçura, elegância natural: parcos seios-ternura sob o vestido curto e algo transparente de um amarelo esbatido.
A sua pele luzia uma leve substância, um óleo, um suor próprio de quem fica de pé até de madrugada, no Verão.
Foi aí que a vi. Na madrugada.
Foi numa viela. Ia repugnantemente acompanhada por um vilipêndio qualquer que não quero descrever senão por quidam ascoroso, um daqueles erros a que não se pode aditar mais nada.
Mas ela, no fundo, ia sozinha. Como sempre se está, no fundo.
Quis tocar-lhe o corpo quando a vi. Tocar-lhe, tocar-lhe com as mãos, que é substanciar o que se tocou com os olhos.
Toquei-lhe só com os olhos. E ela deixou. Tocou-me também assim. Deixei. Vinha vindo e me olhando e tocando com o olhar. (Interesseiramente, apenas? Não sei. Não interessa). Sorria-me quase imperceptivelmente, a ver se a ajudava e lhe sorria de volta para assim completar a construção labial que me queria erigir; mas eu, nem imperceptivelmente. Ela, contudo, manteve o leve sorriso nos lábios.
Não sorri porque receei que me agarrasse. Que me prendesse. Ou que me repelisse. Mas, primeiro, que me atasse a si ainda mais do que aquando do primeiro vislumbre que tive do seu existir.
Receei. Sou fácil e fraco no amor porque me enamoro de tudo o que é belo, exposto.
Podia ter-lhe tocado. Ali mesmo, provavelmente. Na viela. Era uma prostituta.
O seu corpo, novo como o meu.
Quis tê-la imediatamente. Desejei-a com a maior ternura. Quis cuidar dela, dar-lhe o rosto e fazer o dela sorrir. Sorrir seguramente. Sem ter de. Pois ela saberia que lhe estaria amando a ternura da sua existência. Quis trepar-lhe as pernas lindas, tão esbeltas e esguias, desnudas como os olhos que as olhavam. Perfeitas passaram, e transportavam sentido.
«Que estás aí a fazer», perpassou-me ainda o espírito, «nessa vida?»
Gostava de ter ficado com ela. Gostaria de a ter salvo do que quer que fosse. De nada. Nada se salva. Gostaria então de lhe ter abraçado a danação. De lhe ter penetrado nos olhos escuros, castanhos, e contemplado o sexo. Em seguida, o contrário.
Queria metê-la toda dentro da minha vida, como outros cá dentro se encontram.
Ah, e como era ela também vilipêndio. Toda ela — Marraquexe. Mas é só amar-lhe a existência, é só, e a salvo disso. Mas e como se encontra já salva dum juízo denigrativo, denegrido — salva do aspecto meramente social, flagelativamente cultural com que a eivam.
Sê livre em mim, que podes!
Trabalhas na profissão que o tempo há mais tempo sustenta, vendendo-te hoje ao mundo que por ti passe. Só eu te não compro. Eu pilhei o que o dinheiro não paga: que foi o amor indiscriminado. To reservo de graça.
Meu deus! Como eras linda e mais qualquer coisa que foi desejar-te o todo que toda a decência ignora.
Mas, impressionante, como senti todo o Marrocos bem mais vulgívago que tu, amor ignoto. Como se vendiam bem mais que tu. Quão mais vendidos!
Penso-te. Tenho o prazer de te pensar. E é tudo.
Ter a liberdade de um corpo solto, à distância de um olhar fito em um mamilo que quis ser entrevisto. Ter a liberdade desse desejo e o desejo dessa liberdade que o olhar fitou. És eterna e eternamente incorruptível em mim. Sopro puro da minha imaginação. Mancha etérea na minha percepção. Mancha-me! Vulgariza-me com a tua prostração prostituta! Quero ser ao teu nível.
A minha vontade era ser amado pelos teus braços e sexo e rosto.
Ah! passar-te os dedos por onde imagino passá-los... quereres-me como te quero, que seria deixares-me que te tivesse, não com propriedade, que isso paga-se, mas com enovelamento outrossim anímico, gratuito, somente à mercê da enoveladeira do amar natural.
Beijar-te-ia. Ter-te-ia beijado se as coisas se tivessem eventualmente proporcionado como aqui as exauro.
Mas podia ter-te sorrido. Podia ter sido mais fiel ao que agora escrevo. Um sorriso ténue, como o que me deste. Também, talvez o não tenha feito por a troca ocular me ter surpreendido ao ter sido mantida, sorridente, por ti, ao passares por mim, muito perto, lenta como a manhã. Era cedo. Pele de bronze pálido luzindo. O teu mamilo espiava-me por trás do leve tecido translúcido que o cobria e tu sabia-lo.
Confesso que o que te amei mais foi todo o teu ser dadivoso. Oferecias-te-me. Não sei se com desejo, se com vontade, se por qualquer necessidade. Mas tal movimento labial que delineia um sorriso como o que vi, não pode ter declinado apenas de um mero e exclusivo interesse pecuniário. Nem me interessa a mim pensá-lo assim. Fazes agora parte do meu imaginário: realidade expandida. És o que eu fizer de ti. Não sou mau como o Homem que te faz só prostituta e te não sabe reinventar. Tem medo de ti, porque lhe mostras quem é, quem ele julga não ser. Eu, amar-te-ia. Existentemente com os olhos e mãos e sexo e corpo aos teus olhos e mãos e sexo e corpo. A minha mente amaria a tua. Tal como te amo agora, só por existires, te ter visto. Existentemente, que é o suficiente para te amar. Mas, ah… se tivesses sido mais tangível, substancialmente mais tangível...
Quem me dera ter-te sorrido. Que pusilânime vontade, que teve medo de se patentear como a tua. Mesmo assim, mantiveste o teu sorriso, embora hesitante porque hesitei mas, como eu a ti, não deixaste de me olhar. Lembro-me: não desviei os olhos dos teus, ao passares por mim, perto, leve. Foi por não haver um interesse egoístico da minha parte, sabendo eu o que eras, que não sorri. Quis mostrar-te que te amei a existência, com o não te ter sorrido... Pareceu-me inadequado, na altura. Mas era só um sorriso. Havias de ter percebido. Talvez sejas simplesmente mais corajosa, e eu não esteja habituado a tal generosidade. Talvez por isso te não tenha conseguido acompanhar aí. Talvez só por isso. (E o quidam, que ao teu lado seguia a palrar, alienado e inane…) Mas admiro-te a coragem de te teres cravado assim na minha mente. Foi honesto. Não és nenhuma máquina: tens sentimentos; choras. Quem sabe o não estás fazendo agora — fios de prata sobre o teu ouro facial. Lamber-tos-ia até à fonte, lá depositando depois um ósculo, para que passasses a lacrimejar para dentro de mim, já outras lágrimas que não as de antes. E um novo movimento procederia do cerne da tua essência que, talvez murcha ou quase, rápido floresceria, por teres compreendido que eu percebera. Dar-me-ias então sorriso maior porque eu também.
E, na fúria dos corpos desnudados. Sem princípios nem pudor. Sem nada, que é estar só nu. Sem interior complicado. Sendo o total amplexo do cosmos na unidade de dois corpos sobrepostos. Sendo: sendo: sendo. Etérea fúria de unidade cósmica. Qual mão gigante que côncava nos unisse. Livres! Livres de vós todos e de vossa Mãe, a Convenção!
Meu deus!... Como jogo com a tua prostituição, a conduzo em meu e em teu favor. Como seguimos perfeitos no guiar lindo de uma estrada possivelmente impossível. Como nos guia a meretrícia, que libertinamente nos deixa ser como gostaríamos, como eu gostaria, pois tu és eu, recriada por mim em mim. Vens de fora: mas só poderei conceber-te como me é possível, como és dentro de mim, como te recreei, e nunca segundo a realidade limitada a que te reduziram o ser e a existência. Existes, existes realmente, mas és na realidade mais imprecisa do que no imaginário em que te refiz — onde dei asas ao sorriso que me deste. 
Sou criança ao recriar-te em devaneio enlevado. Sei poder percorrer todas as passagens que me dás a abrir. Afinal, és uma prostituta.

Sexta-feira, 15 de Janeiro de 2010

Maybe


Ah well! ah well! maybe
the young have learned some sense.
They ought at last to see through the game,
they've sat long enough on the fence.

Maybe their little bottoms
will get tired and sore at last
of sitting there on the fence, and letting
their good youth go to waste.

Maybe a sense of destiny
will rise in them one day,
maybe they'll realise it's time
they slipped into the fray.

Maybe they're getting tired
of sitting on the fence;
it dawns on them that the whole damn swindle
is played at their expense.


poem by  D. H. Lawrence (master of freedom)

Sexta-feira, 18 de Dezembro de 2009

Hamburg, Germany


Karolinenviertel (bairro Karolinen), Hamburg: 
an access to a part of the neighbourhood.



Rote Flora, in Sternschanze, Hamburg.
This old building was a theatre, built in 1888, one of the few resisting theatres to the II World War. Presently squatted already for 20 years by anti-capitalist and anti-nazi Autonomen. No State inside!

Domingo, 1 de Novembro de 2009

Dieser Blog wird heute 1 Jahr alt

Maldoror

Sexta-feira, 23 de Outubro de 2009

"Gaia is wet and sick"


Crime's the other side of what's right Baba lives on the wrong side of the earth On a plain flat planet I would've been white Nobleman by name aristocrat by birth Selling shades on the beach my daily routine Matches the irony of your Western magazine Papayabananacakecoconutjuice! Baby with the basket pushes fruits and news White man came across the sea To change my under-developed diaper White man came across to me To wipe my ass with tabloid paper I'm a passionate man help me first Ease my hunger quench my thirst Can you see yourself devoured I'll do anything to stay empowered Part of him feels like some new kind of Noah But all he can carry is some hectograms of Goa Big Mother Ocean shut the stereo down He travelled to listen not to see On Arambol Beach his guitar will soon sound When the last black man's crossed the sea His earth turned flat his passport photo black Backpacker Baba's never coming back
taken from Neonism album

Domingo, 20 de Setembro de 2009

Nota Sobre a Tolerância


«[...] o dano causado pelos bons, é o mais prejudicial dos danos.»
F. Nietzsche, Ecce Homo, Porque Sou Um Destino, 4, Ed. 70

No plano intelectual, a tolerância é assentimento irreflectido, imaturo; parte do lado irresponsável, preguiçoso, débil e trivial do ser pensante. Há que ser intolerante; consigo mesmo acima de tudo. A tolerância é inimiga do avanço e do fazer e do autocompromisso individuais. Ser tolerante para com a pobreza alheia é permitir-se, por conseguinte, à preguiça. Todo o espírito desmazeladamente consenciente não acusa mais do que as suas próprias incompetências. Cínicos e ínvidos, revoltar-se-ão, depois, contra os capazes, ressentidos senão com a sua meia-pessoa. De resto, este será todo o movimento a que esses toldados e inúteis hão-de saber ainda prestar-se...

Apontam assim, os autómatos-infantes, ao espírito intolerante: «Também tu não és perfeito, portanto, por que és intolerante?» A resposta só poderia ser uma (a que as suas mentes ainda pouco desenvolvidas, vítimas de ideias de base cristãs, i. e., de uma cultura do fraco, e de uma hodiernidade alienante que os vitimiza sem que se apercebam, não conseguiriam alcançar): «Sou intolerante porque quero o melhor para mim. Também eu sou o outro; e se o outro for decadente, como poderei, eu que o não quero, tolerá-lo?» Além disso, aquilo a que todos tentam escapar a dificuldade é a melhor fautriz da humanidade. A condescendência, por seu lado, é a assassina do espírito e do corpo. Eis então o que na cultura moderna preenche todos os espaços do ser: a ausência.

Não se trata de imperativos para com o outro. Trata-se de rejeitar a contabescência e ser feroz nisso quanto necessário. Reinstaurar o dever para consigo por vero amor a si e à vida, finalmente, e não por caridade, pena ou culpa. Ser bom não é deixar contabescer isso é ser mau. Vivemos uma cultura do desprezo pela vida, da inépcia, do frouxo e, incompetentes, ainda afirmamos ser normal. A compaixão provar-se-á melhor se mascarada de intrepidez, a doçura se ao abrir da mão o que tiver para oferecer for a coragem. Ao invés, o preguiçoso, que nem uma máscara sabe envergar, pretende o seu semelhante à sua imagem, qual vera-efígie onde se reconheça e aplaque é a via mais permissiva do autodesprezo, arranjarem outro igual a si.

Nem isto é um atentado ao ócio, mas tão-só ao espírito fraco, que dia após dia se ilude no escuro da sua caverna, enquanto o tempo em que vive, o útil e belo presente, é adiado. O que acontece? Desperdiça o presente e compromete o futuro, atado a fantasias de incompetência. Os doentes das fantasias, ou da espectacularidade e consumo, desaprenderam a vida. São os lamentosos, os queixosos, os maus leitores, que vivem dos ses e dos sonhos... Ao passo que na realidade, apanharam o gosto ao lamento, à dor, à prorrogação. E depois ainda, fazem colecção de confidentes de todo o tipo, porque se detestam, e porque projectam, no outro e nas coisas, a sua liberdade perdida ― e tudo porque sempre se recusaram a assumi-la em si mesmos: no real. Desconfio mesmo que, em certos casos, possuam o desejo oculto de despejar o seu mal-estar para dentro do outro, a quem ainda chamam de amigo. Vêem neste um padre da sua desgraça; o mesmo acabam fazendo com a poesia e a arte, que tornam receptáculos exclusivos de maleitas. Portanto, para esses, a amizade e os elevadores do espírito são meros depósitos para onde tentam esvaziar-se. Mas, se são eles mesmos, operários de índole fabril, os produtores de tal indústria residual!... Tudo aquilo a que se agarram amizade, família, psicólogos não passa de uma forma pusilânime de fuga; e tudo sem olhar a meios (por vezes a saúde deles e a dos outros, que os aturam) para atingir nenhum fim! Parece que, de tudo o que vive, introjectam apenas definhamento pessoal: não imitam o bom exemplo (i. e., o que é bom para eles), invejam-no. Parece que não suportam tudo o que é vivo; querem tudo à altura do seu ego baixo e macabro.

O espírito intolerante de que este texto fala, não tem mais direito a sê-lo do que o preguiçoso àquilo que é. Mas é contudo norma que seja este a achar-se vitimizado pelo simples facto de o intolerante nutrir uma opinião (esperemos que fundada, não vá cair no mesmo que o seu ímpar) sobre a inutilidade do ínvido preguiçoso o que revela muito... , pois que este, demasiado preguiçoso para sequer formular uma opinião razoável, sabe não outra coisa que empertigar-se e balbuciar. É a capacidade de argumento dos espíritos incomptos.

O espírito intolerante só o é porque teme por si e porque, acima de tudo, conhece o sentido solar da Vida: ao deparar com um mundo de anelídeos, salvo reduzidas e defuntas excepções, antevê, em desesperada introjecção, devido à falta de exaltantes referências entre os seus pares, restar-lhe senão o mesmo estupor. Eis então a razão da intolerância do espírito, eis o que teme (sim, que a sua intolerância mais não é do que o seu saudável instinto de defesa e ataque em acção): sente receio que, sobre a sua promissora condição humana, tal como a sonha e respira, recaia o avatar da minhoca (bicho a que aqui se faz alusão meramente a título metafórico, pois que todos lhe conhecem a utilidade; a Natureza é de carácter útil). O intolerante, cujo espírito é afirmativo (Nietzsche), receia definhar antes do tempo feral, à imagem do que acontece com muitos dos seus semelhantes. Mas não só por isso é intolerante. É-o também porque, a par de compreender e/ou deduzir as variadíssimas causas da preguicite, a não pode aceitar, por sobremodo acreditar em si e (ainda) naqueles a cuja espécie pertence: (ele é também os outros). Pois que também o intolerante possuiria todas as razões para não fazer nada, só que, forte e perseverante, debate-se e vence-se a cada confronto, instrui-se, reinstaura-se e subleva-se acima das perniciosas influências da histórica contabescência compreende o mundo, a Existência, fora da aviltante esfera cultural moderna (pseudo-cultural).

A preguiça impregna o corpo e a acção. Os motivos, são de origem exterior, está claro. Mas é da incapacidade de percepção do seu permissor que aquela se desenvolve; uma percepção, portanto, já anteriormente danificada pela grande conjectura da História (que, com um pouco de atenção e análise, ficará claro para todos). Não há culpa, portanto. Há trabalho a fazer...

Assim, o espírito intolerante, por via de um processo em que a sua consciência transmigra para fora de si e se aproxima do Todo, quer procurar e reconhecer-lhe as fundações, tanto quanto possível. Ainda que nem tudo lhe seja claro, entrevê. É o amigo da claridade, do saber. Indiviso entre Si mesmo e Deus, Terra e Cosmos, Mal e Bem, esta espécie de demiurgo tenta olhar, acima de tudo,  com entendimento. É o filósofo: aquele que procura entender. E a par de entender, como parte que é inserida no todo, não deixa de negar, de atacar, de intervir e de exigir Mudança. Eis porque não tolera. A tolerância é cega, vassala da estagnação; o filósofo, nunca.

Sexta-feira, 31 de Julho de 2009

Corto Maltese


― Ouve, amigo, não tenho nada contra corvos, mas vê se entendes, não posso andar por aí o dia todo contigo... O que dirão os outros?...
― Então, então, Corto, és mesmo tu quem fala assim? Croack... croack... Que importa o que dizem os outros? Croack... croack...

«Sonho de Uma Manhã de Meados de Inverno», Corto Maltese, As Célticas, Hugo Pratt 

. . .

[...] segundo a lenda, Merlim foi encerrado por Viviana nas profundezas da floresta da Brocelândia: de vez em quando, Viviana permite-lhe sair para acudir os filhos dos celtas oprimidos e em perigo. Sim, algures, na misteriosa ilha de Avalon, o rei Artur jaz adormecido, velado pela sua irmã, a fada Morgana: um dia despertará para reunir o que resta dos celtas em todo o mundo, a fim de reconstruir o grande reino com que sonhara, reino de justiça, de fraternidade, de liberdade, reino que não existe mas que há-de vir. E Corto Maltese não é outro senão o profeta anunciador de Merlim e de Artur. 

Do Prefácio de Jean Markale a Corto Maltese, As Céltica, de Hugo Pratt

Segunda-feira, 20 de Julho de 2009

Sou de facto o Diabo

Pensamos, em geral, em termos da nossa sensibilidade, e por isso tudo se nos volve num problema do bem e do mal; há muito que eu mesmo sofro grandes calúnias por causa dessa interpretação. Parece não ter ainda ocorrido a ninguém que as relações entre as coisas ― supondo que haja coisas e relações ― são complicadas demais para que algum deus ou diabo as explique [...].

F. Pessoa, A Hora do Diabo, Assírio & Alvim

Sexta-feira, 10 de Julho de 2009

Piratas na Cinemateca


O primeiro filme foi o The Black Swan, de Henry King. Está a ser (e vai continuar, até ao fim deste mês) uma experiência interessante, revisitar as personagens (se não as mesmas, pelo menos da mesma categoria que dantes) de que gostava quando era pequeno e que ia vendo na televisão. Desde cedo me cativaram, como a muitos, decerto, estes marginais que o cinema, numa perspectiva muito romantizada, é certo (mas isso é o cinema), tratou de representar, entre toda a relevância e, creio, conformidade geográfica dos devidos e atraentes cenários.

A par disto, todo o espaço da Cinemateca de Lisboa é extremamente aprazível e bem aproveitado. Esta temporada de pirataria, que começou este mês a invadir o sítio, tem lugar na esplanada do espaço em questão, o que, com o aproximar do calor, é ideia perfeitamente conivente com a temática dos filmes (sendo que de igual modo proporcionam imagens quentes, arejadas, estivais).

O lado técnico também é favorecedor. A larga tela de projecção da esplanada da Cinemateca, que precede o filme erguendo-se lentamente e com relativa majestade de debaixo do solo, e que lembra um pouco o monólito do 2001, Odisseia no Espaço, só que branca e horizontal, é de facto um momento interessante; e outrossim o poderá ser para quem essa imagem do 2001 tenha deixado impressão, mais ainda se se fizerem o favor de evocar, por paródia, o famoso e vital tema de abertura do poema sinfónico Also Sprach Zarathustra, de Richard Strauss (ainda que sejam outras ― todavia com aquela relacionadas ― as cenas do 2001 que esse tema ilustra).

Fica assim pago, à guisa de simples anúncio, o meu tributo à bela e instrutiva Cinemateca de Lisboa, e aos Piratas de sempre! 


Yo ho ho and a bottle of rum!

Terça-feira, 7 de Julho de 2009

«Não entra ninguém na Antígona
por via do espectáculo e da falsificação da vida.»
Fundada em Junho de 1979, a editora Antígona iniciou a sua actividade com a publicação do livro Declaração de Guerra às Forças Armadas e Outros Aparelhos Repressivos do Estado. Esta obra emblemática anunciava já o programa editorial que se tem vindo a concretizar, sem desvios, ao longo de 30 anos. Hoje, com cerca de 200 títulos, a Antígona mantém a sua paixão inicial pelos textos subversivos, e vai continuar, ainda por muito tempo, a empurrar as palavras contra a ordem dominante do mundo. Com um capital social de «enquanto existir dinheiro, nunca haverá bastante para todos», esta editora tem sobrevivido a todas as crises, adaptando o seu capital variável a cada momento. Refractária, resiste à acção do fogo, sem mudar de direcção. No plano da edição, foi pioneira na forma como valorizou o trabalho do tradutor, dando-lhe força de autor ao colocar o seu nome na capa dos livros, um exemplo que não tem sido seguido por outras editoras. Dos autores publicados, cerca de 150, a maioria era desconhecida do público português, dos quais destacamos: Laurence Sterne, Max Aub, Eudora Welty, Anselm Jappe, Lewis Mumford, Albert Cossery, Bartolomé de Las Casas, La Boétie, Zamiatine, Gabrielle Wittkop, Heinrich Eduard Jacob, Fonollosa, Jean Meslier, Herder, Karl Kraus, Max Stirner, Gómez de la Serna, Robert Bringhurst, Robert Michaels, Sharon Olds, Stig Dagerman, Uzodinma Iweala, Hubert Selby Jr., etc. E assim conseguimos conquistar uma minoria absoluta, que nos sustentou nos 30 anos que agora celebramos festivamente.
Luís Oliveira

Sábado, 4 de Julho de 2009

Domingo, 21 de Junho de 2009

o
dia zangado ou 
porquê→?!
Tu, que te esgotas em banalidade, Tu que te regozijas com as boas estradas do teu país, Tu, que te esbanjas em sonhos estanques, Tu que não andas, Tu, febril das questiúnculas do Febril dos Mandamentos, velhaco arruaceiro do desastre da Arte, embrutecimento do verbo, verborreico vazio, gérmen estéril da Desgraçada Família, Tu o de vida depauperada, dessexuado das preces, realizado na cegueira, Tu, a das pernas fechadas para honrares o Pai e te desprezares a Ti, Tu o homofóbico, Tu, ó misógino, Tu que fazes mofa não vendo que te és escárnio em Si, Tu, que até haverias de gostar de levar no cu mas que teme-lo ainda perante a Moral talvez porque julgues que só expelir coisas dali é que é! Tu! por que insistes em desistir de Ti se até tens com que valer, por que foges para o sonho se a Realidade é o Sonho, Tu camaleão do potencial variegado, por que te surges só monocromo, por que te resumes a embarcação unirreme de movimento circular sobre o eixo paralítico de um círculo autotelicamente irrisório e tonto em águas estagnadas e paisagem em 360º de tontaria redonda e obtusa, por que te desfazes nisso e só andas pelo país a apreciar as sáfias rectas alcatroadas?, Tu que temes as curvas não-das-estradas, que sentes vertigens não-dos-sítios-altos, mas que és efectivamente mais alto que os sítios altos, mais sinuoso que todas as curvas de todas as estradas, que tens em Ti a profundidade do pélago, a voracidade do lobo, a sageza do ofídio, diz-me Tu então!, por que te desprezas em cordeiro cagado pelo carreiro fora?! E diz-me Tu, por que os deixas cagarem-se assim em inúteis caganitas pelo carreiro dos demais — diz-me porquê, diz-me Tu,
porquê→?!
anno 2007

Sexta-feira, 12 de Junho de 2009

Notas sobre o Homem

Eu pensava que Deus era a pior invenção dos homens, mas não: os homens são ainda a pior invenção de Deus.
*
O homem inventou Deus porque não se soube inventar Homem.
*
A única e verdadeira religião, é a estupidez.

Quarta-feira, 10 de Junho de 2009

Da Rejeição da Cegueira ou: Dali até Aqui

(old stuff)

Mora na infantilidade
Do seu ser grande.
Ser é-lhe uma futilidade,
Que da sua prisão nada se expande.

Não reconhece a vida.
Conhece-lhe só a confusão.
Sabe que a odeia (e lhe é querida),
E lhe vive o indizível, emotivo turbilhão.

«Raios! Livre é o ser invisível
Da inexistência ― nenhum!
Só esse é crível...
Porra pra esta merda, quero ser um!»

Mas um dia, ao crescer,
Veio a dizer em razão:

«Hei-de quando for grande
Ser luz do Sol
E iluminar o que escureci.»

Domingo, 7 de Junho de 2009