domingo, 1 de Novembro de 2009

Dieser Blog wird heute 1 Jahr alt

Maldoror

sexta-feira, 23 de Outubro de 2009

"Gaia is wet and sick"

Crime's the other side of what's right Baba lives on the wrong side of the earth On a plain flat planet I would've been white Nobleman by name aristocrat by birth Selling shades on the beach my daily routine Matches the irony of your Western magazine Papayabananacakecoconutjuice! Baby with the basket pushes fruits and news White man came across the sea To change my under-developed diaper White man came across to me To wipe my ass with tabloid paper I'm a passionate man help me first Ease my hunger quench my thirst Can you see yourself devoured I'll do anything to stay empowered Part of him feels like some new kind of Noah But all he can carry is some hectograms of Goa Big Mother Ocean shut the stereo down He travelled to listen not to see On Arambol Beach his guitar will soon sound When the last black man's crossed the sea His earth turned flat his passport photo black Backpacker Baba's never coming back

taken from Neonism album

domingo, 20 de Setembro de 2009

Em análise: nota sobre a Tolerância

«[...] o dano causado pelos bons, é o mais prejudicial dos danos.»
(F. Nietzsche, Ecce Homo, Porque Sou Um Destino, 4, Ed. 70)

No plano intelectual, a tolerância é assentimento irreflectido, imaturo; parte do lado irresponsável, preguiçoso, débil e trivial do ser pensante. Há que ser intolerante; consigo mesmo acima de tudo. A tolerância é inimiga do avanço e do fazer e do autocompromisso individuais. Ser tolerante para com a pobreza alheia é permitir-se, por conseguinte, à preguiça. Todo o espírito desmazeladamente consenciente não acusa mais do que as suas próprias incompetências. Cínicos e ínvidos, revoltar-se-ão, depois, contra os capazes, ressentidos senão com a sua meia-pessoa. De resto, este será todo o movimento a que esses toldados e inúteis hão-de saber ainda prestar-se...

Apontam assim, os autómatos-infantes, ao espírito intolerante: «Também tu não és perfeito, portanto, por que és intolerante?» A resposta só poderia ser uma (a que as suas mentes ainda pouco desenvolvidas, vítimas de ideias de base cristãs, i. e., de uma cultura do fraco, e de uma hodiernidade alienante que os vitimiza sem que se apercebam, não conseguiriam alcançar): «Sou intolerante porque quero o melhor para mim. Também eu sou o outro; e se o outro for decadente, como poderei, eu que o não quero, tolerá-lo?» Além disso, aquilo a que todos tentam escapar ― a dificuldade ― é a melhor fautriz da humanidade. A condescendência, por seu lado, é a assassina do espírito e do corpo. Eis então o que na cultura moderna preenche todos os espaços do ser: a ausência.

Não se trata de imperativos para com o outro. Trata-se de rejeitar a contabescência e ser feroz nisso quanto necessário. Reinstaurar o dever para consigo ― por vero amor a si e à vida, finalmente, e não por caridade, pena ou culpa. Ser bom não é deixar contabescer ― isso é ser mau. Vivemos uma cultura do desprezo pela vida, da inépcia, do frouxo e, incompetentes, ainda afirmamos ser normal. A compaixão provar-se-á melhor se mascarada de intrepidez, a doçura se ao abrir da mão o que tiver para oferecer for a coragem. Ao invés, o preguiçoso, que nem uma máscara sabe envergar, pretende o seu semelhante à sua imagem, qual vera-efígie onde se reconheça e aplaque ― é a via mais permissiva do autodesprezo, arranjarem outro igual a si. Nem isto é um atentado ao ócio, mas tão-só ao espírito fraco, que dia após dia se ilude no escuro da sua caverna, enquanto o tempo em que vive, o útil e belo presente, é adiado. O que acontece? Desperdiça o presente e compromete o futuro, atado a fantasias de incompetência. Os doentes das fantasias, ou da espectacularidade e consumo, desaprenderam a vida. São os lamentosos, os queixosos, os maus leitores, que vivem dos ses e dos sonhos... Ao passo que na realidade, apanharam o gosto ao lamento, à dor, à prorrogação. E depois ainda, fazem colecção de confidentes de todo o tipo, porque se detestam, e porque projectam, no outro e nas coisas, a sua liberdade perdida ― e tudo porque sempre se recusaram a assumi-la em si mesmos: no real. Desconfio mesmo que, em certos casos, possuam o desejo oculto de despejar o seu mal-estar para dentro do outro, a quem ainda chamam de amigo. Vêem neste um padre da sua desgraça; o mesmo acabam fazendo com a poesia e a arte, que tornam receptáculos exclusivos de maleitas. Portanto, para esses, a amizade e os elevadores do espírito são meros depósitos para onde tentam esvaziar-se. Mas, se são eles mesmos, operários de índole fabril, os produtores de tal indústria residual!... Tudo aquilo a que se agarram ― amizade, família, psicólogos ― não passa de uma forma pusilânime de fuga; e tudo sem olhar a meios (por vezes a saúde deles e a dos outros, que os aturam) para atingir nenhum fim! Parece que, de tudo o que vive, introjectam apenas definhamento pessoal: não imitam o bom exemplo (i. e., o que é bom para eles), invejam-no. Parece que não suportam tudo o que é vivo; querem tudo à altura do seu ego baixo e macabro.

O espírito intolerante de que este texto fala, não tem mais direito a sê-lo do que o preguiçoso àquilo que é. Mas é contudo norma que seja este a achar-se vitimizado pelo simples facto de o intolerante nutrir uma opinião (esperemos que fundada, não vá cair no mesmo que o seu ímpar) sobre a inutilidade do ínvido preguiçoso (o que revela muito...). Pois que este, demasiado preguiçoso para sequer formular uma opinião razoável, sabe não outra coisa que empertigar-se e balbuciar. É a capacidade de argumento dos espíritos incomptos.

O espírito intolerante só o é porque teme por si e porque, acima de tudo, conhece o sentido solar da Vida: ao deparar com um mundo de anelídeos, salvo reduzidas e defuntas excepções, antevê, em desesperada introjecção, devido à falta de exaltantes referências entre os seus pares, restar-lhe senão o mesmo estupor ― eis então a razão da intolerância do espírito, eis o que teme (sim, que a sua intolerância mais não é do que o seu saudável instinto de defesa e ataque em acção): sente receio que, sobre a sua promissora condição humana, tal como a sonha e respira, recaia o avatar da minhoca (bicho a que aqui se faz alusão meramente a título metafórico, pois que todos lhe conhecem a utilidade; a Natureza é de carácter útil). O intolerante, cujo espírito é afirmativo (Nietzsche), receia definhar antes do tempo feral, à imagem do que acontece a muitos dos seus semelhantes. Mas não só por isso é intolerante. É-o também porque, a par de compreender e/ou deduzir as variadíssimas causas da preguicite, a não pode aceitar, por sobremodo acreditar (ainda) naqueles a cuja espécie pertence: (ele é também os outros). Pois que também o intolerante possuiria todas as razões para não fazer nada, só que, forte e perseverante, debate-se e vence-se a cada confronto, instrui-se, reinstaura-se e subleva-se acima das perniciosas influências da histórica contabescência ― compreende o mundo, a Existência, fora da aviltante esfera cultural moderna (pseudo-cultural).

A preguiça impregna o corpo e a acção; os motivos, são de origem exterior, está claro; mas é da incapacidade de percepção do seu permissor que ela se desenvolve; uma percepção, portanto, já anteriormente esconjurada (que, por delicada complexidade, e oficiosidade autoral, não vou parafrasear: analisem). Não há culpa, portanto. Há trabalho a fazer...

No entanto, o espírito intolerante, por via de um processo em que a sua consciência transmigra para fora de si assumindo o Todo, não se abstém de reconhecer tudo. Ainda que nem tudo lhe seja claro, entrevê. O intolerante é, por isso, o Filósofo. E o Filósofo, indiviso entre Si mesmo e Deus, Terra e Cosmos, Mal e Bem é, acima de tudo, Compreensão. Mas precisamente por compreender, contraria. Espécie de demiurgo, desempenha assim como que dois papéis: se compreende (I), reconhece (II) ― eis porque não tolera. A tolerância é cega; o Filósofo, nunca.

sexta-feira, 31 de Julho de 2009

Corto Maltese


― Ouve, amigo, não tenho nada contra corvos, mas vê se entendes, não posso andar por aí o dia todo contigo... O que dirão os outros?...

― Então, então, Corto, és mesmo tu quem fala assim? Croack... croack... Que importa o que dizem os outros? Croack... croack...

«Sonho de Uma Manhã de Meados de Inverno», Corto Maltese, As Célticas, Hugo Pratt

. . .

[...] segundo a lenda, Merlim foi encerrado por Viviana nas profundezas da floresta da Brocelândia: de vez em quando, Viviana permite-lhe sair para acudir os filhos dos celtas oprimidos e em perigo. Sim, algures, na misteriosa ilha de Avalon, o rei Artur jaz adormecido, velado pela sua irmã, a fada Morgana: um dia despertará para reunir o que resta dos celtas em todo o mundo, a fim de reconstruir o grande reino com que sonhara, reino de justiça, de fraternidade, de liberdade, reino que não existe mas que há-de vir. E Corto Maltese não é outro senão o profeta anunciador de Merlim e de Artur.

Do Prefácio de Jean Markale a Corto Maltese, As Céltica, de Hugo Pratt

segunda-feira, 20 de Julho de 2009

Explica o Diabo:

Pensamos, em geral, em termos da nossa sensibilidade, e por isso tudo se nos volve num problema do bem e do mal; há muito que eu mesmo sofro grandes calúnias por causa dessa interpretação. Parece não ter ainda ocorrido a ninguém que as relações entre as coisas ― supondo que haja coisas e relações ― são complicadas demais para que algum deus ou diabo as explique [...].

F. Pessoa, A Hora do Diabo, Assírio & Alvim

sexta-feira, 10 de Julho de 2009

Piratas na Cinemateca


O primeiro filme foi o The Black Swan, de Henry King. Está a ser (e vai continuar, até ao fim deste mês) uma experiência interessante, revisitar as personagens (se não as mesmas, pelo menos da mesma categoria que dantes) de que gostava quando era pequeno e que ia vendo na televisão. Desde cedo me cativaram, como a muitos, decerto, estes marginais que o cinema, numa perspectiva muito romantizada, é certo (mas isso é o cinema), tratou de representar, entre toda a relevância e, creio, conformidade geográfica dos devidos e atraentes cenários.

A par disto, todo o espaço da Cinemateca de Lisboa é extremamente aprazível e bem aproveitado. Esta temporada de pirataria, que começou este mês a invadir o sítio, tem lugar na esplanada do espaço em questão, o que, com o aproximar do calor, é ideia perfeitamente conivente com a temática dos filmes (sendo que de igual modo proporcionam imagens quentes, arejadas, estivais).

O lado técnico também é favorecedor. A larga tela de projecção da esplanada da Cinemateca, que precede o filme erguendo-se lentamente e com relativa majestade de debaixo do solo, e que lembra um pouco o monólito do 2001, Odisseia no Espaço, só que branca e horizontal, é de facto um momento interessante; e outrossim o poderá ser para quem essa imagem do 2001 tenha deixado impressão, mais ainda se se fizerem o favor de evocar, por paródia, o famoso e vital tema de abertura do poema sinfónico Also Sprach Zarathustra, de Richard Strauss (ainda que sejam outras ― todavia com aquela relacionadas ― as cenas do 2001 que esse tema ilustra).

Fica assim pago, à guisa de simples anúncio, o meu tributo à bela e instrutiva Cinemateca de Lisboa, e aos Piratas de sempre!

Yo ho ho and a bottle of rum!

terça-feira, 7 de Julho de 2009


«Não entra ninguém na Antígona
por via do espectáculo e da falsificação da vida.»
Fundada em Junho de 1979, a editora Antígona iniciou a sua actividade com a publicação do livro Declaração de Guerra às Forças Armadas e Outros Aparelhos Repressivos do Estado. Esta obra emblemática anunciava já o programa editorial que se tem vindo a concretizar, sem desvios, ao longo de 30 anos. Hoje, com cerca de 200 títulos, a Antígona mantém a sua paixão inicial pelos textos subversivos, e vai continuar, ainda por muito tempo, a empurrar as palavras contra a ordem dominante do mundo. Com um capital social de «enquanto existir dinheiro, nunca haverá bastante para todos», esta editora tem sobrevivido a todas as crises, adaptando o seu capital variável a cada momento. Refractária, resiste à acção do fogo, sem mudar de direcção. No plano da edição, foi pioneira na forma como valorizou o trabalho do tradutor, dando-lhe força de autor ao colocar o seu nome na capa dos livros, um exemplo que não tem sido seguido por outras editoras. Dos autores publicados, cerca de 150, a maioria era desconhecida do público português, dos quais destacamos: Laurence Sterne, Max Aub, Eudora Welty, Anselm Jappe, Lewis Mumford, Albert Cossery, Bartolomé de Las Casas, La Boétie, Zamiatine, Gabrielle Wittkop, Heinrich Eduard Jacob, Fonollosa, Jean Meslier, Herder, Karl Kraus, Max Stirner, Gómez de la Serna, Robert Bringhurst, Robert Michaels, Sharon Olds, Stig Dagerman, Uzodinma Iweala, Hubert Selby Jr., etc. E assim conseguimos conquistar uma minoria absoluta, que nos sustentou nos 30 anos que agora celebramos festivamente.
Luís Oliveira

sábado, 4 de Julho de 2009

Os sentimentos são a forma de raciocínio mais incompleta que se pode imaginar.


Isidore Ducasse, Poesias, I


domingo, 21 de Junho de 2009

o
dia zangado ou
porquê→?!
Tu, que te esgotas em banalidade, Tu que te regozijas com as boas estradas do teu país, Tu, que te esbanjas em sonhos estanques, Tu que não andas, Tu, febril das questiúnculas do Febril dos Mandamentos, velhaco arruaceiro do desastre da Arte, embrutecimento do verbo, verborreico vazio, gérmen estéril da Desgraçada Família, Tu o de vida depauperada, dessexuado das preces, realizado na cegueira, Tu, a das pernas fechadas para honrares o Pai e te desprezares a Ti, Tu o homofóbico, Tu, ó misógino, Tu que fazes mofa não vendo que te és escárnio em Si, Tu, que até haverias de gostar de levar no cu mas que teme-lo ainda perante a Moral talvez porque julgues que só expelir coisas dali é que é!
Tu! por que insistes em desistir de Ti se até tens com que valer, por que foges para o sonho se a Realidade é o Sonho, Tu camaleão do potencial variegado, por que te surges só monocromo, por que te resumes a embarcação unirreme de movimento circular sobre o eixo paralítico de um círculo autotelicamente irrisório e tonto em águas estagnadas e paisagem em 360º de tontaria redonda e obtusa, por que te desfazes nisso e só andas pelo país a apreciar as sáfias rectas alcatroadas?, Tu que temes as curvas não-das-estradas, que sentes vertigens não-dos-sítios-altos, mas que és efectivamente mais alto que os sítios altos, mais sinuoso que todas as curvas de todas as estradas, que tens em Ti a profundidade do pélago, a voracidade do lobo, a sageza do ofídio, diz-me Tu então!, por que te desprezas em cordeiro cagado pelo carreiro fora?!
E diz-me Tu, por que os deixas cagarem-se assim em inúteis caganitas pelo carreiro dos demais — diz-me porquê, diz-me Tu,
porquê→?!

anno 2007

sexta-feira, 12 de Junho de 2009

Notas sobre o Homem


Eu pensava que Deus era a pior invenção dos homens, mas não: os homens são ainda a pior invenção de Deus.
*
O homem inventou Deus porque não se soube inventar Homem.
*
A única e verdadeira religião, é a estupidez.

quarta-feira, 10 de Junho de 2009

Da Rejeição da Cegueira ou: Dali até Aqui

(old stuff)

Mora na infantilidade
Do seu ser grande.
Ser é-lhe uma futilidade,
Que da sua prisão nada se expande.

Não reconhece a vida.
Conhece-lhe só a confusão.
Sabe que a odeia (e lhe é querida),
E lhe vive o indizível, emotivo turbilhão.

«Raios! Livre é o ser invisível
Da inexistência ― nenhum!
Só esse é crível...
Porra pra esta merda, quero ser um!»

Mas um dia, ao crescer,
Veio a dizer em razão:

«Hei-de quando for grande
Ser luz do Sol
E iluminar o que escureci.»

domingo, 7 de Junho de 2009



terça-feira, 26 de Maio de 2009

Do amor...


Quero penetrar-te o ânus,
Ouvir-nos ao tom gemebundo
Do fogo que faz girar o mundo,
Entre nossos sôfregos abanos.

Quero pôr-to na boca,
Sentir-ta assim cheia,
Em tua língua de geleia,
Qual fero animal em doce toca.

Quero habitar-te a vagina,
Que é como ter-te toda,
Não apenas mera foda:
Coisa bem mais dina.

anno 2005

sexta-feira, 22 de Maio de 2009

E se depois
E se depois O sangue ainda correr Corre atrás dele
E se depois O fogo te perseguir Aquece-te nele
E se depois O desejo persistir Consome-te nele
E se depois O sangue ainda correr Corre atrás dele
E se depois

"philosophy of the crazed"

(Original version from La Masquerade Infernale)

quinta-feira, 21 de Maio de 2009

Para uma possível desmistificação...


«Eu sou de facto o Diabo», que faz a vez do título deste blogue, foi recuperado d' A Hora do Diabo, de Fernando Pessoa, e auto-sugere-se, aqui, como metáfora de contradição ao estabelecido.
A Filosofia, a Literatura e a Arte, farão os meios. No compromise still!


"...and come again!"





quarta-feira, 20 de Maio de 2009

Os olhos

nunca se fecham porque, quando se fecham (como dizemos), ficam abertos atrás das pálpebras.

Da imitação decadente


Imitamo-nos, e re-imitamo-nos, uns aos outros estupidamente (o que se faz bem, em pouco ou nada é imitado, os bons são desprezados, o herói ignorado), num mimetismo ridículo e decadente centrado em núcleos culturais baixos cujas delimitações nos cingem a amplitude da vera inteligência, do espírito solto. Ao que chamamos de inteligência só damos uso, portanto, em parte, e num sentido prático-competitivo; e se esta parte única a que damos uso serve só para imitar, não a usamos de todo.


refractário.

terça-feira, 12 de Maio de 2009

Em análise: Autoria vs Genitura


A função do homem, enquanto homem, não é procriar. Esta é a função do animal, do homem enquanto animal. A função do homem enquanto homem (partindo do princípio que terá uma função), é a de criar (o que quer que seja). E se o homem é homem para além de animal, então esse é o seu predicado. O desejo de procriar advém de instintos básicos naturais. Desejar só isto, é ser só metade: o ser humano não se traduz só em instintos básicos. Quem se fica pela metade, julgando que se está a realizar enquanto indivíduo, parece-me a mim que tão-só se descura e trai. Não acredito que a procriação conceda verdadeira auto-realização. Que realizaram, é tudo com que poderei concordar. Mesmo apesar de todo o milagre inerente a dar à luz (mãe) ou a quem preside (pai).

Esta inclinação teórica que aqui exponho deve-se, também, ao facto de me parecer que aquele que nasce se torna, a meu ver, mal nasça, demasiado independente; de uma vida própria tão própria que me parece um pouco imaturo e fantasioso (ainda que o compreenda enquanto potencial pai, embora, enquanto tal, o não alimente) que o genitor se sinta auto-realizado por o ter tido, uma vez que, do meu prisma, é como se não fosse obra sua. Como se a obra, embora criada por intervenção de outrem, fosse, ainda assim, dela mesma; no sentido em que cada um é tão seu quanto a sua consciência lho permite (haverá casos que contrariarão isto, não para aqui chamados, porém); tão potencialmente independentes, que não terão de dar, sequer, satisfações por existirem. Porque o filho tem a liberdade de se desvincular moralmente dos respectivos genitores.

Esta sintomia em nada pretende anular o sentimento de amor, de orgulho, mesmo de pertença que se sinta por aquele a quem se deu vida ― milagre provavelmente magnífico, repito ―, nem vice-versa. Eu, que já sonhei que era pai, que tinha a minha filha nas mãos, havia água e sol, e ela, com uns mesitos apenas, brilhava tanto que eu não sei se a luz vinha do sol, se dela. Mas, apesar da indissociável ligação (se se criarem laços, está claro, ou pelo menos biológica), o filho não pertence aos genitores. Logo que nasce, existe demasiado por si. Há uma ligação (subaquática) entre o continente e a ilha, no entanto a ilha está isolada. O ser humano será sempre un(it)ário. O reconhecimento, a consanguinidade, são meras aproximações: o que nos liga verdadeiramente ao outro, mais que tudo, é a imaginação, essa forma de nos repensarmos.

Já as obras do criador, terão sempre mais dificuldade, senão impossibilidade, de existirem, logo que concebidas, sem aquele: comparativamente. Mesmo depois de lhe sobreviverem. Posso conhecer indivíduo tal, gostar dele, e pouco ou nada me interessar a respectiva genitura ou progénie. Quanto às obras criadas pelo ser-criador, não há quem não tenha sempre uma maior curiosidade relativamente à autoria. A par de que o criador estará sempre no seu pleno direito de reclamá-las suas, que elas nunca lho hão-de negar.

É claro que haverá imensas teorias possíveis quanto à autoria e à obra, por quanto haja de autores que possam achar-se distantes da sua criação. Mas há que discernir que aqui se faz a comparação-distinção entre «autoria» e «genitura» com o fim único de atentar na diferença entre ambas as noções em relação com os vínculos subjacentes a cada uma. Do que concluo: só à obra criada criativamente (seja qual for) poderá sobrevir auto-realização. E, contra um possível argumento: nunca a prole humana ― apartando-nos, desde já, de todo e qualquer argumento poético-sentimentalista ― poderá ser considerada do ponto de vista criativo, senão do da realização natural (mesmo tendo em conta todo o milagre subjectivamente inerente à mesma).

O homem, a mulher, precisarão bem mais da sua obra ― isto é, como indivíduos, como potências ― do que precisarão dos seus filhos (ainda que, de um ponto de vista culturalmente afectivo e naturalmente biológico, estes lhes sejam, de longe, mais importantes).


Dediquei-me, aqui, ainda que concisamente, a uma análise tentativamente abnegada, relegando-me do pressuposto dos laços afectivos, de forma a aproximar-me melhor do que importa: o indivíduo em si, partindo do princípio de que, em circunstância alguma, um ser, enquanto indivíduo, não deve, do ponto de vista ético e deontológico, submeter-se a um outro por detrimento próprio.

domingo, 3 de Maio de 2009

Sou de facto o Diabo


«Mas o senhor vira tudo do avesso...»
«É o meu dever, minha senhora. Não sou, como disse Goethe, o espírito que nega, mas o espírito que contraria.»

F. Pessoa, A Hora do Diabo, Assírio & Alvim

segunda-feira, 27 de Abril de 2009

The Ghost Song



Awake
Shake dreams from your hair
My pretty child, my sweet one.
Choose the day and choose the sign of your day
The day's divinity
First thing you see.

A vast radiant beach in a cool jeweled moon
Couples naked race down by its quiet side
And we laugh like soft, mad children
Smug in the wooly cotton brains of infancy
The music and voices are all around us.
Choose they croon the Ancient Ones
The time has come again
Choose now, they croon
Beneath the moon
Beside an ancient lake
Enter again the sweet forest
Enter the hot dream
Come with us
Everything is broken up and dances.

domingo, 26 de Abril de 2009

Da luz umbrífera

O ser humano é um projeccionista. Está constantemente empenhado em projectar a luz da sua capacidade de análise sobre os outros e as coisas. O que ele ignora é que, a maior parte das vezes, muito possivelmente, a luz que faz incidir sobre determinado objecto só cria sombras.

segunda-feira, 20 de Abril de 2009

4 Artistas Vivos: Divulgação


Tiago Baptista


(Prémio Fidelidade Mundial Jovens Pintores 2009)
Sem título, 2009
Acrílico sbre papel
202 x 190 cm

André Catarino
Sem título, 2009
Esferográfica sobre papel
70 x 100 cm

Miguel Lopes
"Possessão", 2009
Acrílico sobre papel

Minerva de Carvalho
Sem título, 2009

Tinta-da-China sobre papel

sexta-feira, 17 de Abril de 2009

and the meaning of life is...
























(autor desconhecido. anyone?)

imagina

estavas ao computador, a escrever um texto já avançado, suficientemente importante para ti. no 8.º andar onde moras, e onde estarias nesse momento, avistavas da janela, devido a um enorme ruído que te despertara a atenção, uma enorme onda, duas vezes o teu prédio, varrendo, do rio, a cidade, vindo na tua direcção. o que fazias?
fazia Save

o maior desafio do iconoclasta, é quebrar o ídolo-eu

quinta-feira, 16 de Abril de 2009

Lucifer, bringer of Light


Lúcifer (à parte todas as hipóteses em redor da palavra, mas entenda-se a típica), querubim com elevado sentido das coisas, foi expulso do Céu por as coisas não andarem muito bem por lá; foi expulso porque era um delator refractário, coisa que nunca agradou aos orgulhosos tiranos.
Mas o meu espírito inquieto e crítico nutre mesmo a suspeita de que Lúcifer não foi expulso mas antes se foi embora de livre vontade, tendo sido posteriormente trocadas as voltas às coisas por meio de homens dolosamente inspirados. Os homens sempre trocaram as voltas às coisas.


"i have given my head to the service of art...art is an anagram for rat...a rodent...a misfit...a stigma to man. the artist is a stigma to god...outside all dead ends...the true nigger―made for the plague.
[...]
"i felt a bound w/ this rude offender―as the neo artist is the ultimate criminal who rapes and reveals and redefines space...no longer will the artist serve under popes and kings...sculptors exhault in the new rock of ages...the art emerging from the boundless scope of rock n roll needs no other patron than people. the neo artist―the nigger of the universe―rises thru people...is an extension of the people... [...] our work is the heart beat of the future."

taken from:

quarta-feira, 15 de Abril de 2009

Da Moral Cristã (haverá outra?)


Não existe uma Moral (espécie de entidade com direito a letra maiúscula e tudo) como existem postes de iluminação na rua a iluminar-nos o caminho. A moral não é intrínseca ao homem como a natureza (que é só natural); foi adquirida depois. É algo de que se ganhou noção, historicamente, e de que nos apropriámos e nos apropriamos conforme nos foi e nos vai dando jeito.

O conceito de Moral é egológico. E não serão as acções do Ego senão ferozes manifestações dos nossos medos?...


«[...]
A moral antinatural, isto é, quase toda a moral que até agora foi ensinada, venerada e pregada, se vira contra os instintos da vida ― é uma condenação ora secreta, ora declarada e insolente destes instintos. Ao dizer "Deus vê no coração" diz não aos mais baixos e altos desejos da vida e assume Deus como inimigo da vida... O santo, em que Deus tem o seu agrado, é o castrado ideal... A vida acaba onde começa o "reino de Deus"...
[...]
A moral, tal como foi entendida até agora ― como foi, finalmente, formulada por Schopenhauer enquanto "negação da vontade de viver" ― é o próprio instinto de décadence, que de si mesmo faz um imperativo. Diz ela: «Afunda-te" ― é o juízo dos condenados...
[...]
Nós, imoralistas, [...] não negamos com facilidade, buscamos a nossa honra em ser afirmativos. [...]»

Frederich Nietzsche, O Crepúsculo dos Ídolos, A Moral como Contra-Natureza, Tradução: Artur Morão, Edições 70

terça-feira, 14 de Abril de 2009

criança,

levas em ti o meu sonho:
um grande fardo às costas
a que ainda não sentes o peso.